quarta-feira, dezembro 31, 2003
Até para o ano. terça-feira, dezembro 30, 2003SismosAqui, no Earthquake Hazard Program podemos observar a actividade sísmica mundial nos últimos 30 dias e, por exemplo, descobrir que dia 10 de Dezembro a terra “abanou” três vezes aqui em território luso. Uns meros 2,9. Coisa pouca. Aqui, as medidas, para o antes e o depois, que sugere a cruz vermelha, onde podemos até encontrar um livro para as crianças aprenderem enquanto se divertem. Mas porquê?Aconselho-vos um local na rede para que, em 2004, todos os pais (e não só), não se atrapalhem e confundam com os porquês dos pequenitos. O motor do automóvel da mamã; os brinquedos que brilham no escuro; a tuvisão; os sonhos e pesadelos; e muito mais. Tudo aqui, onde podemos descobrir como as coisas funcionam. Um bom ponto de partida é a actualidade: Como funcionam os sismos? A Dois?Manuel Falcão, o director do novo canal de servilismo público, afirmou, em entrevista (daquelas pequenas, género bibelô) à Grande Reportagem, que detesta quando: ‹‹Percebo que não consigo mudar o que queria.›› Tenham medo. Tenham muito medo. Intuição femininaEnquanto nos deslumbrávamos, mais uma vez, que nunca são demais, com um dos filmes mencionados no post anterior, a minha esposa lança uma questão certeira: - Como é possível que actores nascidos no século XIX, fossem melhores que a maior parte dos nossos do século XXI? Maravilhoso sexto sentido, esse, da flor que eu amo. segunda-feira, dezembro 29, 2003Insubstituíveis, a bom preçoA partir desde mesmo dia, em que aqui largo as minhas palavras cibernéticas, sinto-me uma pessoa mais completa e, embora todos esperem o relato de uma acção maravilhosa ou de uma edificação inigualável, tal sentimento foi despoletado por um acto de consumo. Três digital versatile discs, cada um adquirido pela módica (uma vez que o conteúdo é abismal) quantia de 20 euros cada – Modern Times; The Great Dictator; Monsieur Verdoux. Três obras maiores que o próprio cinema, quem sabe, maiores que o próprio autor. Quem desconhece, não devia, deve, conhecer. Quem pode, coloque na estante, não como mostruário, mas como enciclopédias que se consultam várias vezes por ano. Quanto tudo bate certo, quando tudo parece desmoronar-se. É que ter isto - é o mesmo que ter tudo. Serve ainda este post, para mais um pequeno apelo ao consumo. Uma das maiores surpresas cinematográficas de 2001 e, infelizmente, um filme quase condenado ao esquecimento. Uma história tocante sobre a procura do próprio eu, sobre equilíbrios, aspirações e revelações. Na fnac, a 9 euros, antes que acabe. Senhoras e Senhores, A Origem do Amor. No dia em que o noticiário tremeuOntem, enquanto punha as noticias em dia, Pacheco Pereira alertou-me para ter medo, ter muito medo. Tentei recordar os cabeçalhos dos últimos dias e como não me recordava de nenhum documentário português intitulado “Dominó na IP5”, esperei pelo resto do aviso. O blogger mais mediático falava de terramotos e entendia que deveríamos andar todos abalados com a ideia (mais que provável, e eu concordo) da terra “mexer” em Lisboa. Perguntava-me a minha mulher: ok, já estou com medo. E agora, fico aqui com medo? – E JPP prontamente explicou que a razão de provocar medo é despertar os lisboetas e fazê-los agir. Agir como? Pedir esclarecimentos e informarmo-nos acerca de: quais as zonas de mais risco; o cumprimento, ou não, das normas de segurança na construção de edifícios, as medidas a tomar na ocorrência de um sismo; entre outras. Agradeço a preocupação do comentador. Mas mais agradecia se ele cumprisse também o seu papel, aproveitando os meios mediáticos de que dispõe para enunciar o que ele próprio sabe. Porque, por exemplo, afirmou saber quais as zonas mais perigosas, mas quando incitado a nomeá-las “desviou-se” pela existência de mapas e relatórios que, mesmo que disponíveis para consulta, acabam por estar muito “escondidos” do cidadão comum. Venho então, por este meio, pedir que nos esclareça. Mesmo sabendo que é perigoso para uma figura com tanta audiência causar especulações imobiliárias e outros problemas, penso também que acaba por ter uma obrigação moral para com os mesmos cidadãos que acabou de “avisar”. Prémios?Não irei divulgar nenhuma lista dos melhores blogs de 2003, embora o tenha feito com os preferíveis posts. A razão prende-se não só por respeito pelos blogs que habitam a minha coluna da direita (sem intenções politicas nesta denominação), e por uma questão de coerência: a colocar um na lista de melhores, comprometia colocar todos. No entanto não desanimem. Para 2004 está já em preparação a segunda edição dos Bloscares – os prémios mais absurdos da blogosfera. Este ano os bloscares deixam de ser em Agosto para serem colocados no próprio dia dos Óscares do cinema, de modo a fazer sombra, e com o objectivo de retirar toda a audiência do Kodak Theatre. As maiores agências publicitárias, a nível mundial, já preparam as suas candidaturas ao poster do evento, o conteúdo dos blogs de 2003 já foi enviado aos 500 membros da academia, e por toda a imprensa e forums já principiou o debate. Isto promete. domingo, dezembro 28, 2003Três em 2003Como já mencionei em posts anteriores, uma das maiores admirações que 2003 me trouxe foi a blogosfera. Ao longo de vários meses, os blogs proporcionaram-me momentos de: descoberta, gozo, aprendizagem, emoção, atrito, náusea, harmonia, enternecimento, concordância, sorrisos sentidos, gargalhadas imprevistas, risos irónicos. Decidi então, em jeito de balanço, apresentar aqui, três textos que constituem um bom exemplo desta variedade de conteúdos. São textos de blogs “mediáticos”, mas não procuro menção nos ditos “blogs” por “re-postar” as suas palavras. Muitos outros locais escreveram momentos dignos de referência. Estes foram apenas alguns que me agradaram tanto que acabei por arquivar. Para todos vocês, aqui vão, três de 2003: Um amigo de Nuno Costa Santos ‹‹Perguntam-me por que é que eu mantenho uma ligação tão forte com a minha terra e eu respondo: os amigos. E acrescento: os amigos do meu pai. E ainda faço uma precisão: os amigos de infância do meu pai. Os poucos a quem, apesar de não partilharmos o mesmo sangue, tratarei sempre por tios - e que me ensinaram quase tudo o que sei e sinto sobre a amizade. O meu pai e eles não se viam diariamente. Direi até: nem mesmo com regularidade. Mas, sempre que se encontravam, não circulava entre eles o ar espesso e pesado da distância. Não havia artificialismos nem conversas de ocasião. Em pequeno, costumava juntar o meu incipiente vulto ao deles – alinhava, ainda de madrugada, nas caçadas e pescarias, acompanhava-os na altura das visitas às casas uns dos outros, quase sempre sem necessidade de avisos prévios, e ouvia as suas histórias de juventude, com namoros, motas e Beatles à mistura. Mais tarde, sobretudo quando passei da adolescência à idade adulta, transferiram algum do afecto que sentiam pelo meu pai para mim – começaram também a tratar-me como amigo, um dos chegados. Há uns anos, andava eu em apuros comigo e com o mundo, um deles apanhou-me numa festa de casamento, agarrou no meu braço e levou-me para um passeio. A certa altura, falou-me num tom ao mesmo tempo triste e apaziguado: “Aquilo que o teu pai te tem dito sobre o curso e sobre a vida, em geral... Olha que ele tem razão...”. Nessa altura, o tamanho da barriga e a cor amarelenta dos olhos denunciavam-no como estando muito doente – um ano depois veio mesmo a morrer, em circunstâncias trágicas que não interessa aqui recordar. Não segui o seu conselho, mas ainda hoje sinto que aquela conversa foi uma espécie de missão, uma missão de amizade, um gesto que gostaria de, um dia, poder ter com os filhos dos meus melhores amigos. ›› Blogs, não-blogs de Francisco José Viegas ‹‹O pior que poderia acontecer aos blogs, além de elaborarmos códigos de conduta, seria determo-nos mais tempo do que o necessário nas razões que levam alguns bloggers a «encerrarem actividade». É provável que existam blogs que não resistam ao Verão ou que só existam porque há Verão, e disponibilidade, e vontade de falar. Isso dura enquanto dura. A natureza do blog é profundamente individualista — mesmo quando abriga vários individualismos. Acabam como começam, temos pena ou não, mas sabemos que ressuscitarão por aí, se ressuscitarem. O impulso que leva alguns bloggers a iniciarem actividade é precisamente o mesmo que os leva a «encerrar actividade». Alguns esgotam os seus objectivos. Alguns, outros, cansaram-se, e estão no seu direito. Outros mudam de rosto e não nos apercebemos (sim, sim). Têm uma marca de exibicionismo e de intimidade, de clarividência e de lugar-comum, de banalidade e de excepção. Tudo isso é natural. Que o Pedro, primeiro, tenha querido acabar com o Guerra e Pás e que o outro Pedro quisesse, depois, interromper o Flor de Obsessão é natural — porque as razões até estão lá inscritas (talvez mais no Guerra e Pás ). Mas nada disso é dramático. Tudo isso estava escrito e inscrito, como disse. Prevejo, de facto, que boa parte dos blogs acabem por estes dias, quando acabar o Verão, quando a vida ganhar «outro sentido» ou for necessário «regressar à vidinha». Um blog não é «um meio de comunicação social». O seu carácter flutuante diz-nos que «viver sempre também cansa», que há coisas que nascem da imensa harmonia do mundo, e que há outras que vêm do fundo da tempestade. Não interessa. Temos de ser tolerantes para com a própria natureza do blog, que é essa: existe enquanto existe. Não sei quando acabará o Aviz . Vou escrevendo, tenho a noção de que escrever num blog é uma coisa precária (não tenho contador, não quero, não caio em tentação, não — claramente, não — acho que um blog tenha «audiência», talvez tirando o Abrupto ), que somos voyeurs e objectos de voyeurismo em simultâneo. Mas há coisas que se dizem através dos blogs e há coisas que não digo através dos blogs. O que escrevo noutros lados não me impede de escrever o que escrevo no Aviz , mas não penso muito nisso. Não roubo tempo «ao outro lado» para escrever neste; nem roubo tempo «a este lado» para escrever no outro. Cada coisa — cada suporte — tem a sua natureza, mesmo que não a saiba identificar. No Aviz escrevo sobre a noite, sobre a insónia, sobre a minha fé e as minhas saudades, sobre política, sobre o que quiser, sem me importar com a opinião de Luís Delgado. Não tenho a ideia de uma «utilidade» dos textos; acho que há textos dos blogs que têm dignidade suficiente para serem publicadas em livro, numa revista, numa página de jornal; e há colunas de jornal que nunca deixaria que se publicassem no meu blog, porque nenhum preço paga aquela mediocridade, aqueles erros de gramática ou aquela falta de ideias. O mundo é um mistério, não é? Acho que é por isso mesmo (por o mundo ser um mistério) que tenho um blog. Discuto com quem quero (e só com quem quero), discuto até onde quero (e só até onde quero), no registo mais «disponível» por que se possa optar. Provavelmente por ser assinado e se tratar de um blog público não é tão confessional como seria um «diário pessoal». Mas mesmo o carácter confessional da escrita, como se diz no Norte, «vai da pessoa». Muitas vezes, o Aviz é um texto único contra a noite, contra a insónia, contra os mosquitos que vêm com o Verão. E vai com a música que estou a ouvir. Na generalidade, inclusive, penso que há blogs muito interessantes com que aprendi bastante — sobre literatura, sobre filosofia, sobre política. Com outros, irrito-me em silêncio porque prolongam aqui a ignorância que se detecta nas «conversas de circunstância», reproduzindo erros e omissões da imprensa generalista ou da mais alinhada. Mas por isso mesmo defendo a inexistência de qualquer código de conduta senão aquele que deriva do bom-senso — que é uma coisa muito pessoal. Desconfio daqueles que vêm educar as massas e arrebanhar multidões (acho o proselitismo muito discutível). Desconfio ainda mais daqueles que se vêem investidos da missão de «acordar consciências» para pôr toda a gente a discutir e a «debater». Aqui deixamos o que queremos e só somos julgados por isso. Acho bem que existam blogs que citem, citem, citem, que exponham as suas paixões e que escondam os seus amores. Tudo se nota, quando é escrito. Escrever profundamente é mostrar os lugares da paixão (a paixão, a divergência, o ressentimento, o amor, a delicadeza, a tranquilidade), mas só quando se quer. Muitas vezes é só insónia. Só perguntas: e a noite, o que é? — por exemplo. Fazer de um blog mais do que isso já me parece extravagância.›› Uma frase de Pedro Mexia ‹‹eu não me queixo de nada. Detesto queixas. Quando não me agrada alguma coisa, não costumo recorrer à queixa mas à ironia (por isso é que sou de direita, e não de esquerda)›› sábado, dezembro 27, 2003Fechar o Natal em belezaAqui. segunda-feira, dezembro 22, 2003
Estes dois contos, são o meu presente de Natal para todos vós. Obrigado a todos os blogs pelos momentos bem passados neste ano.
FELIZ NATAL ![]() A última semana antes do NatalEstava quase na hora de fechar. O Sr. Américo passou o pano do pó pelo confortável, mas gasto, cadeirão de pele preta. Não havia mais clientes para atender. Assim como todos os outros dias, numa das últimas barbearias de Lisboa. Os clientes habituais partiram para o reino das almas, e só velho amigo Ventura ainda ali passa diariamente, para falar dos resultados desportivos, e lamentar outros tempos. Ventura, o velho careca, até a barba lhe faz a assistente social. Mas é uma boa companhia. Um jovem casal de namorados sorri ao olhar pelo vidro, comentando como tem graça aquela barbearia. – Tem graça que nunca entrem – pensou Américo. Preferem os grandes e novos salões, cobertos de posters anunciando novos penteados e a última moda em gel. Ali, na barbearia Sequeira, os únicos posters estão gastos. Um Cary Grant de assinatura comida, um calendário das baterias Tudor que parou no tempo, e uma antiga promoção do Restaurador Olex. Américo preparava-se para fechar, talvez para sempre. - Aguente-se até ao Natal homem – aconselhava-lhe o velho Ventura - O Natal é como outro dia qualquer – respondia-lhe sempre Américo. Américo retirou a bata. Preparava-se para apagar as luzes quando entrou um senhor forte com uma longa barba branca. - Vai fechar? – perguntou o homem - Ora essa. Ainda se atende mais um – brincou Américo, animado mais por ter companhia do que por ter um cliente. O homem sentou-se no cadeirão, com um ar bem-disposto. - Então, é para dar um acerto no cabelo? – perguntou Américo, enquanto colocava uma bata em redor do grande pescoço do homem. - Olhe que não. Decidi livrar-me desta grande barba. - Tem a certeza? - Absoluta. Não passará de hoje. Américo iniciou a árdua tarefa que se impunha. Já metade da barba se encontrava espalhada pela madeira do chão quando o homem forte mudou o tema de conversa, até aquele momento, baseado na decisão de se livrar de tão farta barba. - Então lá temos mais um Natal há porta. – lembrou o homem. - É apenas mais um. Um dia como os outros – respondeu melancolicamente o barbeiro. - Apenas mais um? – indignou-se o homem – Natal é sempre bem-vindo. O único dia do ano em que as pessoas se amam e respeitam. Só por isso, é sempre bom haver Natal. - Isso era dantes. Agora é mais um dia a ver a televisão. Lá passa um bom filme de vez em quando. – corrigiu Américo. - Então e a família? O convívio? O conforto acolhedor das pessoas que se juntam? - Eu já não tenho quem se me junte – desabafou Américo. O homem forte olhou o barbeiro pelo espelho, sentia-lhe o olhar triste camuflado pela mestria com que aparava o que restava da barba. - Ora aí está, até parece outro. – comentou Américo ao terminar o trabalho. O homem observou o seu reflexo e levantou-se com um acenar de cabeça aprovador. Pagou a Américo e deixou-lhe um gorjeta acima da média. Cumprimentou-o e partiu. Américo limpou a barbearia, desligou as luzes, e partiu para casa. O dia seguinte seria apenas mais um mas, para grande espanto de Américo, o homem voltou a aparecer, com a barba de novo crescida, branca, e farta. - Não diga nada homem – apressou-se logo o cliente – Isto está relacionado com as hormonas. Foi sempre assim. Vamos mas é lá outra vez cortar. Américo, ainda confuso, lá desempenhou a sua função. E no dia seguinte, e no outro, e no outro. Todos os dias, antes do sol se pôr, lá tornava o homem, com a sua longa barba, e após cada corte retribuía sempre acima do normal. Até que na véspera de Natal, finalizado mais um corte, o homem perguntou ao barbeiro: - Então esta semana acabou por correr bem? - Olhe, com as barbas todas que lhe fiz, a semana pagou-se tanto como um mês. - Ora aí está uma boa notícia. Mas olhe que agora tem de retribuir. - Diga lá então. Cliente tão fiel manda! – brincou Américo. - Prometa-me então uma coisa. Pega em algum deste dinheiro extra que ganhou, e hoje à noite prepara uma boa refeição de Natal para duas pessoas. – ordenou o homem. - Isso é estragar comida meu bom amigo. – avisou o barbeiro. - Não me faça uma desfeita dessas. Olhe que nunca se sabe, nunca se sabe. - Faço, mas porque o senhor tem sido um óptimo cliente. Vai ver no entanto que se estraga. Um desperdício! – tornou a avisar Américo. O homem levantou-se sorridente e, com um forte aperto de mão, despediu-se. - Um santo Natal para si meu bom amigo – desejou o homem - Um santo Natal – retribuiu o barbeiro Nessa noite, Américo cumpriu o prometido. Preparou uma farta ementa de Natal, abriu uma garrafa de bom tinto, e colocou a mesa para dois. Sabia que jantaria sozinho, mas sentiu-se bem ao manter-se ocupado com um objectivo. Sentou-se, colocou o guardanapo ao peito, e preparava-se para iniciar o seu manjar Natalício quando ouviu um riso vindo das escadas. - Ho Ho Ho! – ecoava no edifício Depois alguém bateu à porta. domingo, dezembro 21, 2003Conto de NatalEra véspera de Natal. Nas enormes rotundas interiores, forradas a vidro, enfeites e promoções, as pessoas circulavam como formigas num carreiro. Centenas de filas, caminhos, entradas e saídas, onde as vozes, os passos, e o lambuzar das máquinas registadoras, se misturavam com cânticos de Natal em versão remix. O senhor Abílio embora já lhe doesse o corpo, mantinha-se sentado no grande cadeirão forrado de veludo vermelho e verde, com uma criança de olhos brilhantes no colo que lhe contava timidamente como tinha sido o seu ano enquanto brincava com a longa barba branca de Abílio. Recebeu uma mão cheia de doces e correu para a mãe que sorria enternecida. Com aquela ternura de quem quer voltar a criança. De voltar a sentar no colo do Pai Natal. Abílio soltou a sua gargalhada natalícia, forte mas acolhedora, e incentivou mais um pequeno a aproximar-se. Era um menino louro, muito bem penteado, trajado a rigor para as compras do Natal. Ouviu os últimos conselhos do pai e dirigiu-se para o colo do senhor que é conhecido por dar presentes. - Então como te chamas tu, meu pequenote – perguntou alegremente Abílio - Benardo – respondeu envergonhada a criança, ao que o pai, sorrindo, corrigiu – Bernardo. - Então e tu portaste-te bem este ano? - Sim. - E foste bom para os outros meninos? - Sim. - E o que quer o Bernardo pedir ao Pai Natal? Bernardo que olhava para baixo, levantou finalmente os olhos para Abílio – o pião mágico que dá na televisão que eu gosto muito ... - Bernardo. Não te estás a esquecer de nada? – perguntou o pai. Bernardo olhou confuso para o pai, mostrando alguns sinais de nervosismo. Bernardo tentava adivinhar o que seria, apenas formulando meias palavras. - Gostava que os meninos do mundo … - ajudou o pai. - Sim. Não tivessem fome, e que não há as guerras, e todos os meninos vão ter presentes do Natal. – respondeu Bernardo, enquanto o pai sorria orgulhoso. Abílio olhou para o pai de Bernardo, e assim ficou observando as suas reacções. Bernardo, impaciente, começou a balouçar as pernas. - Muito bem. E queres então um pião não é? – indagou Abílio, lembrando-se do pequeno. - Sim. O pião que faz barulhos … e o action men que anda na água … e o carro dele .. e …e… o o jogo do cão para a televisão… e o filme dos peixes e .. e… o pião. Abílio sorriu e retirou uma mão-cheia de chupas coloridos da sacola que ofereceu a Bernardo. Bernardo desceu do colo e foi dar a mão ao pai enquanto olhava os doces. - O que se diz Bernardo? – lembrou o pai - Obrigado – respondeu a criança sem tirar os olhos dos doces O pai voltou a sorrir orgulhoso e quando se preparavam para partir, Abílio chamou. - Ho, Ho, Ho, então e o pai não quer pedir nada ao Pai Natal? - Não … eu já tenho tudo. – respondeu embaraçado o pai de Bernardo, enquanto tentava esboçar um sorriso e olhava para as pessoas à sua volta. Abílio ficou apenas a olhar novamente o pai de Bernardo que se afastava com o pequenote insistindo para que este guardasse os doces no saco. Uma lágrima correu pelo rosto de Abílio. - Feliz Natal – sussurrou para si mesmo – Feliz Natal. sexta-feira, dezembro 19, 2003A interrupçãoA maneira como o aborto é tratado pelos partidos portugueses quase que me concede justificação moral para pegar em todos os políticos e colocá-los diariamente em voos da YES até que a estatística prove as suas regras. A abordagem, eu defendo, eu condeno, como se de uma clubite se tratasse é, no mínimo, sinistra. O aborto é uma questão muito complicada ao nível pessoal que pode até levar uma pessoa a reflectir meses seguidos sem chegar a conclusão alguma, como no meu caso. Realmente choca-me que uma mulher possa ser condenada e colocada lado a lado com criminosas devido a uma interrupção voluntária da gravidez. Mas, por outro lado, independentemente do progenitor ou das futuras condições de vida previstas para uma criança, uma vida é sempre uma vida. E a interrupção voluntária da gravidez é a morte de uma vida. Não sei se já se pode considerar um individuo, nem quero entrar nesse debate, mas que é uma vida não há dúvida. Existe um ponto fundamental nesta questão e que é, por si só, responsável pela grande dúvida que me assola neste assunto: Um feto com uma, duas, ou três semanas, não só já é, como possui centenas ou mesmo milhares de variáveis, possibilidades, ou destinos, daquilo que poderá vir a ser. Não se trata de direitos, trata-se de direito. Conclusão: não consigo ainda tomar uma posição, pois sou contra a interrupção de uma forma de vida, mas também me choca o problema do aborto clandestino (mais dos problemas a nível de saúde que colocam as mulheres em risco, do que o facto de poderem ser condenadas à prisão). Agora, para tomar exemplos, o PCP dizer que é a favor, o PP dizer que é contra, mais se assemelha a uma reunião de condóminos discutindo a inclusão ou não de portões automáticos no prédio. Novo referendo talvez seja necessário. Mas eu gostava de ver um referendo sem campanhas, sem bandeiras, nem autocolantes para por ao peito. Sabemos todos aquilo que temos de votar, não nos digam porquê, nem se coloquem em circos mediáticos para jornal ver. Criticam o último referendo. Acusam os portugueses de ir para a praia em vez de votar. Não meus senhores, a maior parte dos portugueses não soube foi decidir. Porque a decisão é difícil. Coloca cada um de nós numa das maiores lutas interiores que um tema pode causar. quinta-feira, dezembro 18, 2003AvisoO conteúdo do penúltimo post é puramente ficcionado. Nenhum animal sofreu, nem a sua integridade física foi, alguma vez, posta em causa. Se há animal que sofre neste blog, sou eu, o que não constitui problema, pois a PETA não morre de amores por mim. Aliás, vice-versa. quarta-feira, dezembro 17, 2003Incertezas coloridasNão necessito de preferências politicas, nem de andar mais num lado que outro, para constatar algo curioso que a blogosfera me ensinou nestes meses. Aqueles que escrevem mais à direita mudam frequentemente de opinião quando constatam que estão errados. Aqueles mais à esquerda mantêm constantemente uma casmurrice deveras curiosa, até quando se apercebem do erro. Sendo eu um traste a nível de história politica, alguém que me explique: isto é novidade ou reincidência? terça-feira, dezembro 16, 2003Instruções para o final do diaPede-se o especial favor de juntar a família, amigos, e colegas de trabalho. Depois abraçam-se (colocar o braço por cima do ombro do próximo), movimentar o corpo para a esquerda e para a direita com pequenas subidas, e cantar em uníssono. ![]() |