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segunda-feira, dezembro 06, 2004


O Elogio do Ovo (ou a destruição da batata)




Nem sequer pergunto porque razão se deve elogiar o ovo. Seja qual for o ponto de vista estamos perante um milagre da natureza, mas antes de me aprofundar na discussão do melhor dos alimentos concentremos a nossa atenção no prato que é necessário apreciar para sermos bons portugueses: o bacalhau cozido com batatas e ovo, bem regado de azeite. O grão? O grão não é para aqui chamado e, já agora, vamos colocar de lado o próprio bacalhau, focando o nosso estudo apenas na batata e no ovo.
Porque razão dizemos com batatas e ovo? Quem decidiu que o tubérculo em questão seria mais importante que o ovo, merecendo lugar de destaque ao surgir primeiro na ficha técnica? Afinal, quem pensa a batata que é? Ora, eu acredito que o prato em questão deveria ser acompanhado não de um mas sim de cinco ou seis ovos, estando a batata limitada, na sua presença, a uma unidade ou até mesmo à simples inexistência. O prato passa então a ser conhecido como bacalhau cozido com ovos e batata, ou bacalhau cozido com ovos. Fiel à crença nos benefícios de tal abordagem à gastronomia nacional, preparei durante anos uma campanha bem estruturada com o objectivo de permitir a abolição da batata e a posterior elevação do ovo ao mais alto patamar que merece: o topo da cadeia alimentar. Por falta de meios económicos e logísticos nunca me foi possível levar esta campanha até junto do grande público, situação que se veio a alterar com o nascimento da blogosfera. Confesso, a única razão da existência deste blog é criar uma audiência, uma base, que permita lançar toda a campanha já mencionada. Este mês de Dezembro, marcava o inicio de tão nobre iniciativa e tudo estava preparado. Foi então que caiu a Bomba. A Carla, sem consciência na sua acção, com a irresponsabilidade de não prever o impacto das suas palavras, veio fazer o elogio da batata, e uma vez que a Carla possui uma audiência vinte vezes superior à minha, pode ter deitado à terra, perdão, por terra, vários anos do meu trabalho. Cara Carla, a vingança é um prato que se come frio.

A Dona Carla começa por afirmar, pretendendo captar desde o inicio a atenção do leitor, que a batata existe há milhares de anos, um truque para envolver um tema desinteressante numa falsa aura de misticismo. Minha senhora, então e o infinito? E a eterna questão entre o ovo e a galinha? O que são milhares quando podemos ter biliões? E as questões Dona Carla, e as questões? Sendo a senhora tão interessada nas questões filosóficas, de onde provêm então esse enganador interesse no tubérculo? Qual é então, diga-me, a filosofia da batata? Será a boçal questão de a passar quente ao próximo? Siga o meu conselho e concentre-se no ovo. Verá surgir perante si um vasto horizonte de maravilhosas questões e surpreendentes enunciados; discussões acaloradas sobre criacionismo e evolucionismo; quem sabe até a resposta para o eterno paradigma: Quem somos? Para onde vamos?
Sim, porque sem ovo a senhora não era nem poderia ser, e passo a citar: ”Em todos os seres vivos, animais e vegetais, o ovo é o primeiro estado de embriogénese. É o resultado da união de células gameticas, diferenciadas ou não, contendo maior ou menor quantidade de reservas, a partir das quais se edifica o embrião.”. Então Dona Carla ... a batata?

Mas a Carla não se fica por aqui. Escondendo-se atrás de volumosos e poeirentos manuais britânicos, atira-nos para os olhos letras do abecedário seguidas de números, aproveitando-se do desconhecimento da maior parte de nós, comuns mortais, nas intricadas e complexas questões da simbologia. Resguarda-se em nomenclaturas tais como “C”, “B6”, e outras, limitando assim a compreensão simples do assunto sobre o qual escreve. Este comportamento é feio, ou seja, não é bonito de se ver, e o leitor, adormecido e hipnotizado que está depois do uso de tão esguia técnica expositiva, chega mesmo a acreditar que a batata não engorda. Não contente com a ilusão propositadamente provocada, a Carla aproveita ainda para lançar as culpas no inocente molho, que estava sossegado e descontraído no seu lugar. Esta batata revela-se afinal repleta de pregos cravados. Faça como eu Dona Carla e não se esconda por detrás de tão inglórios artifícios da escrita. Ao contrário de si, para descrever o ovo eu apenas necessito de ser sincero, dirigindo-me directamente ao leitor que estará aberto ao entender as minhas palavras simples. Por exemplo: os nutrientes do ovo são muito bons, e tudo, e tudo.

O pior está ainda para vir. A meio do texto e, aproveitando-se do facto de nesta fase da leitura estarmos já completamente baralhados, a Dona Carla rasteira-nos com a seguinte afirmação: “Pode não se gostar de batata cozida, mas gostar-se de batata frita”. Aqui, a Carla recorre ao uso das vis ferramentas que tornam a literatura light feminina um abjecto sucesso de vendas: recorre ao estereótipo, apresentando-nos personagens facilmente identificáveis mas vazias, com o intuito de nos agarrar à sua deturpada visão. Usa a mulher, traída pelo marido, que aprecia batata cozida; ou a dona de casa, solitária e triste, que só encontra conforto no consumo da batata frita. Estas personagens, inócuas que são, apenas servem o propósito de mascarar a história de algo que não é, não ensinando nada sobre a condição humana. É mais uma técnica, fria, camuflada, que mais tarde acaba por juntar-se à referencia à fome e à miséria, enunciando casos na história que apenas visam provocar a lágrima fácil no leitor e a vitimização da batata. Chega até a usar instituições de prestigio para servir estes propósitos da noticia choque. Pois fique sabendo, Dona Carla, que liguei para a ONU e a Dona Rosário, telefonista que muito estimo, me informou não existirem tais directivas que menciona no seu texto, aproveitando também para me avisar: - Cuidado com essa senhora que pela batata é capaz de tudo.

Podia continuar, lançar aqui dezenas de argumentos que provam a superioridade do grandioso ovo face à comum batata, mas acredito que as pessoas sabem julgar por si próprias e, depois desta chamada de atenção, não se vão deixar enganar pela sua cabala. A Carla, inteligente que é, soube logo colocar de parte o arroz e os restantes tubérculos, sem no entanto mencionar o ovo, numa astuta manobra de diversão que pretende confundir os livres de espírito. Pensou que ninguém reparava? Que se limitava a seguir impune? Não. Felizmente existe este poder na blogosfera, o de clarificar, e alertar, informando. Informo-lhe até, que a sua movimentação poderá ter colocado irremediavelmente em risco a sua nomeação, e até mesmo a participação, nos bloscares do próximo ano.

Finalizemos então, atirando o passado para trás das costas, e resumindo em poucas palavras, o belo ovo:
Por tornar possível a vida em toda a parte do mundo, pelos bolos e chocolates, pela textura e cor, pela Páscoa, seja estrelado, cozido, escalfado, ou contenha surpresas no interior, o ovo é o verdadeiro alimento sublime.

O que mais se pode dizer da humilde batata? Nada, a não ser, não obrigada!








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